A inteligência artificial já faz parte da rotina de milhões de trabalhadores. Um novo inquérito divulgado nos últimos dias mostra que 50% dos trabalhadores já utilizam ferramentas de inteligência artificial no trabalho, um marco que revela a rapidez com que a tecnologia se está a infiltrar nas empresas, muitas vezes mais depressa do que as próprias organizações conseguem gerir.
Os dados são de uma sondagem realizada pela Gallup a mais de 23 mil trabalhadores, que aponta para uma mudança silenciosa na forma como o trabalho está a ser feito dentro das empresas.
A tendência não é apenas simbólica. O estudo indica que 13% dos trabalhadores utilizam inteligência artificial diariamente, enquanto outros 28% recorrem a estas ferramentas várias vezes por semana. Para muitas organizações, a adoção da tecnologia está a acontecer de forma desigual e, por vezes, improvisada.
A inteligência artificial já entrou no trabalho quotidiano
Ferramentas de escrita automática, análise de dados e automação de tarefas estão a tornar-se parte do dia-a-dia em muitas profissões, desde funções administrativas até áreas técnicas ou criativas.
Segundo o inquérito, 41% dos trabalhadores dizem que as suas empresas já adotaram inteligência artificial para melhorar processos de trabalho.
Mas isso não significa que as organizações tenham uma estratégia clara para lidar com a mudança. Em muitos casos, a tecnologia está a ser usada sobretudo para pequenas tarefas — redigir textos, resumir informação ou acelerar pesquisas — sem alterar profundamente a forma como as empresas funcionam.
Isso cria um cenário curioso: a inteligência artificial está presente, mas ainda não transformou verdadeiramente as organizações.
Líderes usam mais a tecnologia do que os trabalhadores
Um dos dados mais reveladores do estudo é que os próprios líderes estão entre os utilizadores mais frequentes de inteligência artificial nas empresas.
Executivos e gestores estão frequentemente na linha da frente da adoção da tecnologia, testando novas ferramentas ou integrando-as nos processos de decisão.
Mas isso também está a gerar um debate dentro das empresas: algumas organizações querem acelerar a adoção da inteligência artificial; outras preferem deixar que os trabalhadores integrem as ferramentas gradualmente no seu trabalho.
O resultado é um ambiente de transição, em que a tecnologia avança mais rápido do que as regras que a regulam.
Produtividade maior, mas também mais ansiedade
A adoção da inteligência artificial tem efeitos ambíguos. Por um lado, muitos trabalhadores relatam ganhos claros de produtividade. Tarefas que antes demoravam horas podem agora ser feitas em minutos. Por outro, a tecnologia também está a alimentar novas preocupações.
Segundo o estudo, 18% dos trabalhadores acreditam que é provável que o seu emprego desapareça nos próximos cinco anos devido à automação ou à inteligência artificial.
Essa perceção não significa necessariamente que os empregos vão desaparecer, mas revela um clima crescente de incerteza dentro das empresas.
A transformação ainda está no início
Apesar do crescimento rápido da tecnologia, os investigadores sublinham que a transformação do trabalho ainda está numa fase inicial.
Muitas empresas estão apenas a começar a experimentar ferramentas de inteligência artificial, e a maioria das mudanças registadas até agora acontece ao nível das tarefas individuais — não da organização do trabalho como um todo.
A verdadeira transformação poderá surgir apenas quando as empresas começarem a reorganizar equipas, processos e competências em torno da inteligência artificial.
Um teste para a liderança das empresas
A adoção da inteligência artificial tornou-se um dos grandes desafios de liderança nas empresas. Mais do que uma questão tecnológica, trata-se agora de uma decisão estratégica.
Os gestores terão de decidir como integrar estas ferramentas no trabalho quotidiano, como preparar os trabalhadores para novas competências e como evitar que a tecnologia se transforme numa fonte de ansiedade ou desigualdade dentro das organizações.
A inteligência artificial já entrou nas empresas. A questão agora é saber se as empresas estão preparadas para lidar com ela.
