A possibilidade de cada profissional ter uma versão digital de si próprio, capaz de replicar conhecimento, decisões e rotinas de trabalho, está a deixar de ser uma ideia futurista para se tornar uma experiência real em várias empresas tecnológicas.
De acordo com uma reportagem da BBC Technology, já existem organizações a testar “gémeos digitais” — sistemas de inteligência artificial treinados com dados pessoais e profissionais dos colaboradores, incluindo reuniões, documentos e comunicações — com o objetivo de reproduzir a forma como cada pessoa pensa e trabalha.
Um dos casos mais avançados é o de Richard Skellett, analista da consultora Bloor Research, que desenvolveu um assistente de IA personalizado ao longo de três anos. O sistema, conhecido internamente como “Digital Richard”, funciona como uma réplica funcional do próprio utilizador.
Esta versão digital não se limita a responder perguntas: é usada para apoiar decisões, analisar informação e até ajudar na organização de tarefas pessoais e profissionais. Em algumas organizações, estes sistemas já são partilhados entre equipas, permitindo aceder ao “conhecimento” de um colega através do seu gémeo digital.
Segundo a BBC Technology, algumas empresas estão a integrar estes sistemas de forma estrutural. Em certos casos, permitem que colaboradores em fase de reforma façam uma transição gradual, enquanto o seu gémeo digital assume parte das funções.
Também em períodos de ausência prolongada, como licenças de parentalidade, estas ferramentas têm sido usadas como alternativa a contratações temporárias, mantendo parte do fluxo de trabalho ativo.
A própria Bloor Research já disponibiliza o conceito de “Digital Me” como solução padrão para novos colaboradores, num modelo que procura aumentar a produtividade através da inteligência artificial.
O fenómeno está a ser descrito por alguns especialistas como o surgimento do “superworker” — profissionais cuja capacidade de produção é ampliada por sistemas de IA que funcionam como extensões do próprio trabalho humano.
Josh Bersin, consultor na área de recursos humanos, citado pela BBC Technology, defende que estes sistemas permitem reduzir o número de reuniões e acelerar decisões, uma vez que o acesso à informação passa a ser imediato através do gémeo digital de cada colaborador.
Apesar do entusiasmo, o modelo levanta dúvidas significativas no plano legal e ético. Entre as principais questões estão a propriedade do gémeo digital, o controlo dos dados utilizados para o treinar e a responsabilidade por decisões tomadas pela IA.
Especialistas em direito laboral alertam que ainda não existe enquadramento claro para estas tecnologias. A BBC Technology refere que advogados consideram provável que sejam os tribunais a definir, caso a caso, como estas ferramentas devem ser reguladas.
