Há uma pergunta que faço há anos a raparigas no ínicio de sessões sobre carreiras tecnológicas. Uma pergunta simples: “Alguma vez pensaste em trabalhar com tecnologia?” A resposta mais comum não é um “não” convicto. É um encolher de ombros. Um “não sei se sou boa nisso”. Um silêncio que diz tudo.
Esse silêncio custa-nos caro. A todas e a todos.
O mundo digital foi construído sem metade do Mundo
Hoje, 23 de abril de 2026, assinala-se o Dia Internacional das Raparigas nas TIC. Uma data que a União Internacional das Telecomunicações instituiu não para celebrar conquistas, mas para confrontar uma realidade que teima em não mudar: o setor tecnológico continua a ser, em larga medida, um clube masculino.
Os números são conhecidos. Repetidos todos os anos. E continuam a chocar e agulha não move…
As mulheres representam apenas cerca de 26% da força de trabalho global em TIC. Em engenharia de software, esse valor ronda os 20%. Nos lugares de topo das empresas tecnológicas, onde as decisões são tomadas, onde os produtos são definidos, onde o futuro é desenhado, a presença feminina não chega a 15%. Em Portugal, o retrato é semelhante: entre 20% a 25% dos profissionais de TIC são mulheres, e nos cargos de liderança continuam a ser uma raridade que surpreende quando aparece.
E o mais irónico de tudo? As mulheres representam cerca de 40% das profissões qualificadas a nível global. O problema não é a capacidade. Nunca foi.
Não nascemos a achar que tecnologia não é para nós. Ensinam-nos.
Existe uma narrativa confortável que diz que as mulheres simplesmente “não se interessam” por tecnologia. É uma narrativa falsa e conveniente para quem beneficia do status quo.
A realidade é outra. Começa muito antes do primeiro emprego. Começa numa sala de aula, quando uma professora elogia mais os rapazes que respondem às perguntas de matemática. Quando os brinquedos de construção e programação são embrulhados em papel azul e os de cuidado e estética em papel cor-de-rosa. Quando uma rapariga de doze anos diz que quer ser programadora e alguém com a melhor das intenções, responde: “Tens a certeza? É muito difícil.”
A OCDE e a UNESCO documentaram isto extensivamente: mesmo quando as raparigas obtêm resultados iguais ou superiores em matemática e ciências, são menos encorajadas a seguir esse caminho. O resultado aparece nas estatísticas do ensino superior: apenas 19% a 22% dos estudantes de Ciências da Computação são mulheres, mas a semente foi plantada muito antes.
E depois, para as que resistem e entram no setor? A vida não fica mais fácil.
Dentro das empresas: o que os relatórios de diversidade não contam
Há experiências que não cabem em percentagens.
A de estar numa reunião, propor uma ideia, ser ignorada e ouvir essa mesma ideia ser aplaudida quando um colega a repete minutos depois. A de perceber, ao fim de anos, que o colega que entrou ao mesmo tempo, com as mesmas qualificações, ganha substancialmente mais. A de chegar a um ponto de carreira em que a progressão natural simplesmente, pára. Sem explicação formal. Sem porta fechada à chave. Apenas um teto de vidro que toda a gente finge não ver.
A Harvard Business Review documentou o fenómeno da invisibilidade profissional feminina nas empresas tecnológicas. O INE confirma que o setor TIC é um dos que apresenta maior disparidade salarial em Portugal: as mulheres ganham, em média, entre 15% a 25% menos do que os homens em funções equivalentes. E os estudos sobre retenção revelam que cerca de metade das mulheres que entram no setor tecnológico abandona-o antes dos 35 anos.
Não saem por falta de ambição. Saem porque o custo de ficar se torna demasiado alto.
A Inteligência Artificial está a aprender com os nossos piores hábitos
Se os vieses humanos são preocupantes, os algorítmicos são perturbadores, porque não cansam, não dormem e escalam para milhões de decisões por segundo.
A investigadora Joy Buolamwini, do MIT Media Lab, mostrou ao mundo algo que muitos preferiram não ver: os sistemas de reconhecimento facial erram muito mais quando analisam rostos de mulheres, especialmente de pele escura. Não por acaso. Porque foram treinados com dados que não as incluíam. A Amazon teve de abandonar o seu sistema de recrutamento por IA depois de descobrir que penalizava currículos com referências ao universo feminino. Chatbots associam automaticamente profissões de prestígio a homens. Sistemas de crédito penalizam perfis femininos.
A inteligência artificial não é neutra. É um espelho, e o espelho está a mostrar-nos algo feio.
Se continuarmos a construir o futuro digital com equipas homogéneas, esse futuro vai reproduzir, em escala e velocidade sem precedentes, todas as desigualdades que ainda não tivemos coragem de resolver. Esta não é uma questão abstrata de ética tecnológica. É uma questão prática, urgente e com consequências reais na vida de pessoas reais.
A Women in Tech® e a diferença entre celebrar e agir
No meio de muita retórica sobre diversidade e inclusão, palavras que por vezes parecem existir apenas para encher relatórios de sustentabilidade, a Women in Tech® Global Movement distingue-se por uma coisa simples: insiste em resultados concretos.
Com presença em mais de 60 países e uma comunidade de mais de 500.000 membros, a organização há muito que perdeu a paciência com os gestos simbólicos. O seu argumento central é direto: não basta ter um painel com mulheres no Dia das Raparigas nas TIC se no resto do ano as práticas de contratação, progressão e remuneração continuam inalteradas.
O que a Women in Tech®exige e trabalha ativamente para conseguir, são compromissos com números, prazos e consequências. Auditorias salariais tornadas públicas. Processos de recrutamento desenhados para minimizar o viés inconsciente. Programas de mentoria que existam de facto e não apenas no papel. Financiamento real para startups fundadas por mulheres. E, de forma cada vez mais central no seu discurso, a exigência de que os sistemas de inteligência artificial sejam auditados quanto à sua equidade, porque uma IA desenvolvida por equipas homogéneas vai, inevitavelmente, servir de forma desigual.
Há uma frase que ressoa no movimento e que resume bem a sua filosofia: não se pode ser o que não se consegue ver. Por isso, tornar as mulheres tecnólogas visíveis, nas conferências, nos media, nas salas de aula, não é vaidade. É estratégia.
Portugal: Há movimento, mas o destino ainda está longe
Cá dentro, algo tem mudado: instituições têm feito um trabalho consistente de aproximação entre raparigas e o universo tecnológico. A Agenda Portugal Digital reconhece a igualdade de género como dimensão transversal e não apenas como nota de rodapé. Há mais conversas, mais iniciativas, mais consciência.
Mas os dados continuam a pedir mais. A representação feminina nas TIC em Portugal mantém-se abaixo da média europeia. As mulheres em cargos de liderança tecnológica continuam a ser notícia precisamente porque são exceção. E o fosso salarial persiste, documentado, ano após ano, pelo INE.
O progresso existe. Não chega.
O que falta não é conhecimento. É coragem.
Sabemos o que funciona. Sabemos que raparigas expostas a modelos de referência femininos em tecnologia têm mais probabilidade de seguir esse caminho. Sabemos que processos de recrutamento cegos ao género produzem equipas mais diversas. Sabemos que empresas com maior diversidade de género tomam melhores decisões e apresentam melhores resultados financeiros, o McKinsey Global Institute documentou-o repetidamente.
O que falta não é diagnóstico. É decisão.
As empresas precisam de parar de tratar a diversidade como uma iniciativa de comunicação e começar a tratá-la como uma prioridade de gestão, com metas, responsáveis e consequências reais. As escolas precisam de questionar ativamente os estereótipos que moldam as escolhas das raparigas antes de estas terem idade para os reconhecer. Agora com a transparência salarial obrigatória deverá ser pensada e aliada a um financiamento condicionado a metas de diversidade e a integração da perspetiva de género nas políticas de IA.
E todos nós, cada pessoa que trabalha em tecnologia, que educa, que contrata, que financia, precisamos de parar de esperar que “o mercado resolva” uma desigualdade que o mercado, em grande medida, criou.
Para terminar: aquele silêncio.
Voltando às raparigas com quem converso. Ao encolher de ombros. Ao “não sei se sou boa nisso”.
O que aquele silêncio me diz não é que a tecnologia não lhes interessa. Diz-me que ninguém lhes disse, com convicção suficiente e vezes suficientes, que este mundo também é delas. Que podem construí-lo. Que a sua perspetiva não é apenas bem-vinda, é necessária.
O Dia Internacional das Raparigas nas TIC existe para dizer exatamente isso. Mas um dia por ano não chega para desfazer anos de mensagens contrárias.
O código ainda tem género. Mas isso não é uma lei da natureza. É uma escolha. E as escolhas podem mudar.