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A corrida portuguesa à literacia em IA

No podcast “Se Deus fosse IA não havia Fé”, João Miguel Mesquita e Elsa Veloso convidaram Ana Rodrigo Gonçalves, da Academia CIP, para falar sobre o AI Nation Portugal, projeto que quer capacitar meio milhão de pessoas e 50 mil empresas até 2030, com foco na produtividade, na formação prática e na ligação entre empresas, universidades e centros de inovação. A CIP está a desenvolver o AI Nation Portugal como um projeto de capacitação nacional em inteligência artificial, orientado para empresas, trabalhadores, escolas, universidades e decisores. A iniciativa é apresentada por Ana Rodrigo Gonçalves, da Academia CIP – Confederação da Indústria Portuguesa, como uma resposta à velocidade de adoção destas ferramentas e ao risco de parte da economia portuguesa ficar para trás. O objetivo declarado é formar meio milhão de pessoas e 50 mil empresas até 2030. O plano parte da convicção de que a inteligência artificial deixou de ser uma tendência passageira e passou a ser uma infraestrutura de produtividade, com impacto direto no trabalho, na competitividade e na capacidade das empresas responderem aos mercados globais.A iniciativa assenta em vários eixos, entre os quais a capacitação de pessoas e empresas, a transformação digital, o roadshow nacional e os laboratórios de inovação. A CIP pretende levar o projeto ao território, adaptando a formação às realidades económicas locais. A lógica, segundo Ana Rodrigo Gonçalves, não é levar um modelo centralizado de Lisboa para o resto do país, mas trabalhar com as indústrias mais relevantes em cada região.O AI Nation Roadshow pretende percorrer cidades e distritos, ouvindo as empresas locais e ajustando a formação às necessidades de cada setor. Entre os exemplos referidos está o vinho, onde empresas que já usam tecnologia de inteligência artificial poderão partilhar experiência com produtores menos avançados nesta área.O financiamento deverá combinar várias fontes. Numa primeira fase, a CIP está a ajudar empresas a usar verbas do Fundo de Compensação do Trabalho para financiar formação. Segundo os dados referidos no podcast, existem cerca de 500 milhões de euros neste fundo e mais de 20 mil empresas ainda têm dinheiro por resgatar até 31 de dezembro de 2026.Até ao final de junho, a CIP quer contactar cerca de 1.500 empresas com saldos superiores a 20 mil euros no Fundo de Compensação do Trabalho. Nas primeiras três semanas de contacto, foram abordadas 650 empresas. O projeto conta também com parcerias de grandes empresas tecnológicas, que poderão apoiar iniciativas como o roadshow, e deverá articular-se com a Agenda Nacional de Inteligência Artificial, que prevê mais de 400 milhões de euros de investimento até 2030. A CIP refere ainda a possibilidade de recorrer a fundos europeus, nomeadamente para modernizar Digital Innovation Hubs já existentes no país.Na área dos laboratórios, a intenção inicial passava por criar estruturas ligadas a universidades e politécnicos. Contudo, perante a existência de cerca de 17 Digital Innovation Hubs em Portugal, a estratégia poderá passar por aproveitar essas plataformas e adaptá-las às novas exigências da inteligência artificial. O objetivo é ligar investigadores, empresas e consultores a problemas concretos das PME.A prioridade dos laboratórios será aproximar a investigação das necessidades reais das empresas, sobretudo das pequenas e médias empresas. A CIP admite que cada hub poderá exigir parceiros diferentes, consoante a indústria, a região e o tipo de problema a resolver.O plano tem um horizonte até 2030. Em 2026, a prioridade é o arranque e a estruturação. Em 2027, está prevista a expansão territorial. Em 2028 e 2029, o foco será a adoção em escala e a produtividade. Em 2030, a meta será consolidar o projeto e garantir continuidade.As áreas estratégicas foram definidas com base no peso e na relevância de vários setores na economia portuguesa. Entre os exemplos mencionados estão a economia azul, o turismo, a indústria, a energia, a saúde, a construção, os transportes, as farmacêuticas, os serviços, as finanças e a tecnologia. No centro da iniciativa está também a preocupação com a literacia. Ana Rodrigo Gonçalves considera insuficientes formações muito curtas, de poucas horas, para preparar trabalhadores e gestores para o uso efetivo da inteligência artificial. A Academia CIP prevê programas de 24 horas para quem começa do zero, 26 horas para gestores e 14 horas para lideranças.A formação pretende dar uma base prática mínima para que os trabalhadores possam usar ferramentas de IA com autonomia e sentido crítico. A ideia não é transformar todos os profissionais em especialistas técnicos, mas garantir que percebem o potencial, os limites e os riscos destas tecnologias.A dimensão humana é apresentada como parte central do projeto. A CIP enquadra a inteligência artificial como uma ferramenta para aumentar a capacidade de escolha dos trabalhadores, melhorar a produtividade das empresas e reforçar a competitividade da economia. A ética, a governação, as alucinações dos sistemas e os riscos de utilização inadequada surgem como temas que terão de acompanhar a adoção tecnológica.Para a CIP, a transformação por inteligência artificial só será relevante se colocar as pessoas no centro da mudança. Essa é a tese que atravessa o projeto: capacitar empresas significa, antes de tudo, capacitar os seus trabalhadores.