Num mercado de trabalho em rápida transformação, a requalificação tornou-se essencial. Em entrevista ao SAPO, JPS Kohli, Group CEO da SkillUp, explica porque é que a aprendizagem contínua ainda não faz parte do quotidiano de muitas organizações.A aceleração tecnológica está a redefinir funções e a exigir novas competências a um ritmo cada vez mais rápido. A SkillUp é uma plataforma global de e-learning dedicada à capacitação profissional e conta atualmente com um hub em Portugal. Em entrevista ao SAPO, o Group CEO JPS Kohli reflete sobre as lacunas de competências no mercado português, as barreiras à aprendizagem contínua e o que precisa de mudar para que a formação acompanhe a transformação digital.A requalificação e a atualização de competências são frequentemente apontadas como prioridades. Essa urgência já se traduz em ação concreta ou continua a existir um fosso entre discurso e prática?Existe uma consciência clara e crescente sobre a importância da requalificação e do desenvolvimento de competências. As organizações reconhecem cada vez mais que investir em talento é essencial para se manterem competitivas num contexto tecnológico em constante mudança. Ainda assim, persiste um fosso entre intenção e execução, com muitas iniciativas de formação a serem tratadas como ações pontuais e não integradas no trabalho diário. Para transformar esta consciência em resultados concretos, a aprendizagem precisa de deixar de ser isolada e passar a ser um processo contínuo, integrado nos fluxos de trabalho. Quando isso acontece, torna-se mais relevante para os profissionais e deixa de ser vista como algo teórico ou desligado da realidade, permitindo perceber um impacto direto no desempenho.No caso português, que lacunas de competências estão hoje a limitar a empregabilidade e a progressão profissional?O desafio de Portugal não é único e reflete uma tendência global. Por um lado, cresce a procura por competências práticas em áreas como inteligência artificial, ciência de dados e ferramentas digitais aplicadas a contextos reais de trabalho. Por outro, à medida que a automação transforma funções, competências humanas como comunicação, liderança, pensamento crítico e tomada de decisão tornam-se cada vez mais relevantes. O mercado está a evoluir para um modelo híbrido, em que a proficiência técnica por si só já não é suficiente. O mercado está a evoluir para um modelo híbrido, em que a proficiência técnica por si só já não é suficiente. A diferenciação passa cada vez mais pela capacidade de combinar fluência digital com julgamento humano e adaptabilidade. A falta de atualização contínua é muitas vezes atribuída aos próprios trabalhadores. Que papel devem ter as empresas na aprendizagem ao longo da vida?A aprendizagem ao longo da vida não pode ser vista apenas como uma responsabilidade individual. A motivação pessoal é fundamental, mas as organizações têm um papel decisivo na criação das condições que tornam a aprendizagem contínua possível e eficaz.Na prática, isso implica ir além de programas pontuais e integrar a aprendizagem na própria estrutura do trabalho. As empresas estão numa posição privilegiada para identificar as competências necessárias à medida que o negócio evolui e traduzi-las em percursos de aprendizagem estruturados. Quando a formação está alinhada com projetos reais e objetivos operacionais, o envolvimento dos colaboradores aumenta significativamente.Quais são as principais barreiras que ainda dificultam o envolvimento dos trabalhadores na formação contínua?Hoje, as barreiras têm menos a ver com acesso e mais com experiência. Há muitos recursos disponíveis, mas os profissionais têm dificuldade em manter uma aprendizagem consistente. A falta de tempo é frequentemente apontada, mas reflete um problema mais profundo: a aprendizagem não está pensada para se integrar de forma natural nas rotinas diárias. A motivação é outro fator crítico. Sem marcos claros, feedback regular ou uma perceção de progressão, o entusiasmo inicial tende a desaparecer. A cultura organizacional também pesa muito. Quando a aprendizagem não é valorizada pela liderança nem associada à progressão de carreira, os profissionais investem menos tempo e energia. Superar estas barreiras exige percursos de aprendizagem mais estruturados, personalizados e acompanhados, que facilitem a continuidade ao longo do tempo. A tecnologia acelerou a necessidade de requalificação. As empresas estão preparadas para acompanhar este ritmo? Em muitos casos, as empresas continuam a reagir de forma mais reativa do que proativa. Embora exista uma maior consciência do impacto da tecnologia, transformá la em ação concreta continua a ser um desafio. Nem sempre estão claras as decisões sobre onde investir, que funções priorizar ou como medir o impacto. Num contexto de rápida mudança, a capacidade de adaptação contínua é muitas vezes mais valiosa do que tentar prever o futuro. O resultado é que os processos de transformação tornam-se fragmentados. Num contexto de rápida mudança, a capacidade de adaptação contínua é muitas vezes mais valiosa do que tentar prever o futuro. As organizações que melhor acompanham este ritmo são aquelas que testam, aprendem e ajustam de forma iterativa. O que precisa de mudar nas organizações para que a aprendizagem seja uma componente natural da vida profissional? Muitas organizações ainda encaram a aprendizagem como algo separado do trabalho diário. Para mudar esta perceção, a formação precisa de estar integrada nos fluxos de trabalho e diretamente ligada às tarefas que os profissionais já desempenham. Este modelo só é sustentável se existir um ambiente que incentive e valorize a aprendizagem de forma consistente, garantindo que é vista como um processo contínuo e não como uma atividade isolada. Que mudanças são mais urgentes ao nível das políticas públicas para apoiar a requalificação?Tornar a aprendizagem ao longo da vida uma realidade exige alinhar visão estratégica com implementação prática. As políticas públicas devem promover a inovação, mas também assegurar acessibilidade, inclusão e um uso responsável dos dados.É igualmente essencial aproximar a formação das necessidades reais das empresas e do mercado de trabalho. As abordagens mais eficazes são aquelas que permitem um desenvolvimento contínuo e prático, aplicável ao dia a dia profissional.Onde estão as maiores oportunidades para quem investe hoje na atualização de competências?Estão a surgir novas oportunidades para profissionais capazes de se adaptar e reposicionar num mercado cada vez mais tecnológico. Embora exista grande procura por perfis ligados a dados, inteligência artificial, transformação digital ou cibersegurança, cresce também a necessidade de perfis híbridos, que combinem conhecimento técnico com visão estratégica e comunicação.A aprendizagem contínua permite não apenas aceder a novas funções, mas também evoluir dentro das atuais e reforçar a resiliência da carreira. Estas oportunidades surgem sobretudo na interseção entre tecnologia e negócio, onde as empresas precisam de profissionais capazes de transformar ferramentas digitais em valor real. A aprendizagem contínua permite não apenas aceder a novas funções, mas também evoluir dentro das atuais e reforçar a resiliência da carreira.Que mensagem deixaria aos trabalhadores portugueses que receiam ficar para trás? À medida que a inteligência artificial se integra no trabalho diário, o ritmo de mudança continuará a acelerar. O principal desafio está na mudança de mentalidade: encarar a aprendizagem como um processo contínuo e não como um esforço pontual. Quem investe cedo e de forma consistente estará mais bem preparado para lidar com a incerteza. Os profissionais portugueses demonstram curiosidade e vontade de evoluir. A agilidade na adoção de novas tecnologias pode ser uma vantagem competitiva. Ao mesmo tempo, Portugal pode ser uma referência na forma humana e escalável como implementa estas mudanças. Num mercado em transformação, manter a relevância dependerá menos de prever o futuro e mais da capacidade de adaptação.
Trabalhadores temem ficar para trás na transformação digital: “A aprendizagem ainda não está integrada no trabalho diário”
