A nova Agenda Nacional de Inteligência Artificial (ANIA) mostra que produzimos pouco valor por hora de trabalho, mas a ambição é grande. O Governo quer usar a IA como alavanca estrutural para mudar a trajetória da economia, com impacto potencial de dezenas de milhares de milhões de euros no PIB e um salto relevante no contributo da produtividade para o crescimento. O problema é que a realidade — e os dados mais recentes — contam uma história bem menos entusiasmante.
Em 2025, a adoção de IA em Portugal subiu apenas 1,8 pontos percentuais, para 24%. Continuamos a meio da tabela europeia e mundial. Não estamos a recuperar terreno, estamos a acompanhar o pelotão. E quem está estruturalmente atrasado e anda à velocidade da média nunca apanha ninguém.
Mais preocupante ainda: o fosso entre regiões e países está a aumentar. O chamado “Global North” está a adotar IA quase duas vezes mais depressa do que o resto do mundo. Mesmo dentro dos países, o padrão repete-se com precisão quase matemática: grandes empresas avançam, PMEs ficam para trás, setores tradicionais ainda mais para trás. O mercado, deixado a si próprio, não está a corrigir desigualdades — está a ampliá-las.
Isto coloca a ANIA perante uma escolha que ainda não parece totalmente assumida: ou se transforma numa máquina de execução agressiva, focada precisamente onde a produtividade é mais baixa, ou será apenas mais uma estratégia bem-intencionada a surfar uma tendência medíocre.
A própria agenda assume que a Administração Pública deve ser o grande catalisador. A ideia é estrategicamente correta. Num país pequeno como o nosso, o Estado é o único cliente com escala suficiente para criar mercado, normalizar práticas e puxar o tecido económico. Mas aqui está também um dos maiores riscos: a Administração Pública portuguesa tem um talento histórico para transformar boas intenções em cemitérios de pilotos. Fragmentação, aversão ao risco, contratação pública labiríntica e ausência de métricas de impacto já arruinaram demasiadas modernizações para podermos fingir que desta vez será diferente por decreto.
