Mais de metade das empresas estima requalificar ou reafetar até 30% da sua força de trabalho nos próximos dois anos devido ao impacto da inteligência artificial (IA), num contexto em que cresce o receio dos colaboradores quanto ao futuro do emprego e aumenta a pressão sobre as organizações para garantir desempenho sustentável.
Mais de metade das empresas estima requalificar ou reafetar até 30% da sua força de trabalho nos próximos dois anos devido ao impacto da inteligência artificial (IA), num contexto em que cresce o receio dos colaboradores quanto ao futuro do emprego e aumenta a pressão sobre as organizações para garantir desempenho sustentável.
As conclusões constam do estudo Global Talent Trends 2026, divulgado pela Mercer, que analisou respostas de cerca de 12 mil executivos, responsáveis de recursos humanos, investidores e trabalhadores a nível global. O relatório traça um cenário de transformação acelerada do mercado de trabalho, marcado por escassez de talento, desalinhamento organizacional e necessidade urgente de requalificação.
De acordo com o estudo, 65% das empresas esperam que entre 11% e 30% dos seus trabalhadores sejam reafetados ou requalificados devido à IA nos próximos dois anos. Ao mesmo tempo, 40% dos colaboradores temem perder o emprego por causa desta tecnologia, um aumento significativo face aos 28% registados em 2024.
Apesar destes receios, a aposta na formação em competências digitais surge como prioridade: 63% dos trabalhadores afirmam que prefeririam receber formação em IA a um aumento salarial de 10%. Do lado dos investidores, 77% mostram-se mais propensos a investir em empresas que apostam na requalificação dos seus recursos humanos.
O estudo revela ainda um paradoxo crescente: se, por um lado, a IA permite às empresas fazer mais com menos pessoas, por outro, a falta de talento com competências adequadas torna-se um entrave crítico. Mais de metade dos executivos (54%) identifica a escassez de talento como o principal fator a influenciar as estratégias de recursos humanos, enquanto 59% dos responsáveis de RH apontam dificuldades na atração de perfis com competências digitais.
Para responder a estes desafios, 98% dos executivos planeiam alterar a estrutura organizacional nos próximos dois anos e 63% defendem a adoção de modelos de gestão baseados em competências.
O relatório alerta também para um “desalinhamento triplo” dentro das organizações — entre colaboradores, RH e liderança — que poderá comprometer o desempenho. Apenas 44% dos trabalhadores dizem sentir-se a prosperar no trabalho, uma quebra face aos 66% registados em 2024, refletindo níveis elevados de desgaste e ansiedade associados ao chamado “FOBO” (medo de se tornar obsoleto).
Esta desconexão estende-se à perceção do impacto emocional da IA: 62% dos colaboradores consideram que os líderes subestimam este efeito, mas apenas 19% dos responsáveis de RH o integram nas estratégias de transformação digital.
Ao mesmo tempo, a confiança dos líderes na preparação das organizações para a era homem-máquina está a diminuir — caiu de 65% em 2024 para 51% em 2026. Ainda assim, 83% dos investidores acreditam que empresas lideradas por executivos resilientes e adaptáveis terão melhor desempenho em contextos de disrupção.
Apesar de 75% dos líderes reconhecerem a necessidade de acelerar a digitalização, apenas 30% consideram ter um elevado nível de agilidade digital, evidenciando uma lacuna que poderá comprometer a competitividade futura.
“O desafio agora é a execução em grande escala. Num futuro impulsionado pela IA, as organizações que colocarem as pessoas no centro da transformação serão as vencedoras”, conclui Joana Fernandes, líder de Career da Mercer em Portugal.
