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A Inteligência Artificial e o ensino superior: o fim dos professores ou um regresso às origens?

A tecnologia pode libertar tempo e recursos para recuperar a essência do ensino: proximidade, diálogo, pensamento crítico e descoberta partilhada.

A Inteligência Artificial (IA) deixou de ser uma promessa distante para se tornar uma presença incontornável no nosso quotidiano. No ensino superior, discutir se devemos ou não utilizá-la tornou-se estéril. A questão relevante é outra: de que modo a IA transformará os papéis de professores e estudantes no processo de ensino e aprendizagem?

Entre as muitas inquietações que atravessam as instituições de ensino superior, uma sobressai: continuarão os professores a ser necessários? Nos seus piores pesadelos, muitos docentes imaginam salas vazias, aulas sem estudantes, momentos de atendimento sem perguntas. Alguns dirão, com razão, que essa tendência já existe. Mas talvez o problema não esteja na tecnologia e sim no modo como continuamos a ensinar.

O modelo tradicional de aulas expositivas, centrado na transmissão passiva de conteúdos, estava já em declínio antes da emergência da IA generativa. Hoje, tornou-se claramente insustentável. Nenhum estudante se sente motivado a assistir durante horas à exposição de matéria que pode consultar em casa, de forma mais apelativa, personalizada e interativa. A IA apenas tornou evidente uma fragilidade que já existia.

Não sabemos exatamente como será o futuro do ensino superior. Sabemos, isso sim, que será diferente. E, perante essa mudança, temos duas opções: participar ativamente na transformação ou sermos arrastados por ela.

A avaliação é um dos domínios onde esta mudança se torna mais exigente. Garantir justiça, autenticidade e promoção efetiva da aprendizagem implica um acompanhamento mais próximo dos estudantes, discussão presencial de trabalhos e validação rigorosa de competências. Avaliar melhor significa estar mais presente. E isso exige tempo – um recurso cada vez mais escasso na vida académica.

Então, continuam os professores a fazer falta? Sem dúvida. Mas não como meros transmissores de informação, nem como solucionadores de exercícios teóricos. O professor do futuro (e, em muitos casos, do presente) será sobretudo um orientador do processo de aprendizagem, um mediador crítico, um parceiro intelectual dos estudantes.

Na verdade, as grandes aulas expositivas nunca foram o método preferido por ninguém, nem o mais eficaz do ponto de vista pedagógico. Tornaram-se dominantes por necessidade, fruto da massificação do ensino superior. Essa massificação foi, e continua a ser, um enorme progresso social: democratizou o acesso ao conhecimento, acelerou o desenvolvimento científico e abriu oportunidades a gerações inteiras. Mas trouxe consigo um custo pedagógico: o afastamento do ensino personalizado, aquele que melhor promove a aprendizagem profunda.

O exemplo clássico desse ensino personalizado remonta à Grécia Antiga. Sócrates continua a ser a referência maior do que significa ensinar no seu sentido mais nobre. Paradoxalmente, afirmava que “só sabia que nada sabia”. Essa consciência dos limites do próprio conhecimento é, talvez, a primeira condição de um bom professor.

Sócrates não se destacava por dar respostas, mas por fazer perguntas. Perguntas certas, no momento certo. E formular boas perguntas é frequentemente mais difícil do que encontrar respostas. Ao questionar, levava os seus discípulos a descobrir por si próprios, tornando o processo de aprendizagem mais envolvente, duradouro e significativo. Numa linguagem contemporânea, poder-se-ia dizer que Sócrates era um “engenheiro de prompts” para estimular a inteligência natural dos seus estudantes.

O mais notável é que, nesse processo, também o mestre aprendia. Professor e estudante eram parceiros na construção do conhecimento. Ensinar era, antes de tudo, ensinar a pensar.

Essa visão está magistralmente representada na “Escola de Atenas”, de Rafael: um espaço sem filas de carteiras, sem púlpitos, sem hierarquias rígidas. Um espaço de debate, experimentação e aprendizagem conjunta.

Hoje, esse modelo sobrevive sobretudo no doutoramento. Aí, o número reduzido de estudantes permite acompanhamento individualizado e descoberta científica partilhada. O orientador não transmite apenas conhecimento; ajuda a formular problemas relevantes, a questionar pressupostos, a construir autonomia intelectual.

Mas será possível aplicar esse modelo nos ciclos iniciais do ensino superior?

Até há pouco tempo, a resposta seria pessimista. A escala do ensino obrigava os docentes a repetir, ano após ano, a transmissão dos mesmos conteúdos a centenas de estudantes. Hoje, a IA oferece uma oportunidade inédita: o conhecimento está amplamente acessível, organizado e explicável por múltiplas vias. O papel do professor pode, assim, deslocar-se da transmissão para a orientação — ajudar os estudantes a formular as perguntas certas, a interpretar criticamente as respostas e a construir sentido a partir da informação.

Ensino superior sem professores seria como uma orquestra sem maestro. Não produziria harmonia, mas ruído. Um maestro pode saber tocar vários instrumentos, mas não está ali para tocar. Está para orientar, integrar, dar coerência. Do mesmo modo, o professor não existe para fazer o trabalho pelos estudantes, mas para os guiar enquanto aprendem fazendo, errando e melhorando.

Há ainda uma dimensão insubstituível: a humana. A IA não inspira, não estabelece empatia, não partilha entusiasmo nem frustração. Não compreende silêncios, inseguranças ou potencialidades escondidas. Professores, quando dispõem de tempo para os seus estudantes, podem ser mentores, modelos de curiosidade intelectual, exemplos de humildade e rigor.

Talvez o futuro do ensino superior seja, afinal, um reencontro com o seu passado mais virtuoso. A tecnologia pode libertar tempo e recursos para recuperar a essência do ensino: proximidade, diálogo, pensamento crítico e descoberta partilhada.

O melhor é reconhecer, com humildade socrática, que não temos todas as respostas. Mas é difícil não ver na IA uma oportunidade extraordinária para conjugar o melhor de dois mundos: um ensino simultaneamente massificado e personalizado, onde professores e estudantes colaboram na criação de conhecimento, inovação e progresso social.