“Qualquer escola que pense formar jovens tem de os preparar para o futuro, e não o conseguimos fazer se continuarmos a ter medo dos telemóveis e da IA”, diz diretor da Secundária João Gonçalves Zarco.
Com os óculos de realidade virtual colocados, a professora começa a guiar os alunos numa viagem imersiva e sensorial pelo oceano em direção à ilha da Madeira. Chegam a tocar nas orcas e peixes com que se cruzam, ou até a desviar-se de baleias. O que seria, há tempos não muito distantes, uma aula teórica na Escola Secundária João Gonçalves Zarco, em Matosinhos, ganha agora movimento e escala com o ensino dos conteúdos curriculares num ambiente virtual. “É a primeira escola do país” a fazê-lo, assinala Margarida Nápoles, da operadora NOS, parceira desta experiência.
O espaço Lab Zarco, apresentado como “a sala de aula do futuro”, foi um dos projetos inaugurados nesta segunda-feira, na escola de Matosinhos, “considerada uma referência nacional” no ensino público. A direção tem vindo a apostar em projetos com recurso a tecnologia de ponta, preparando os estudantes para os desafios que enfrentarão ao longo do seu percurso profissional. Acresce ainda a capacitação da comunidade escolar para se proteger de possíveis ciberataques.
Entre a azáfama habitual na escola e o burburinho dos alunos nos corredores como pano de fundo, o diretor José Ramos mantém o foco, convicto de que este é o caminho a trilhar: “Qualquer escola que pense formar os jovens tem de os preparar para o futuro, e não o conseguimos fazer se continuarmos a ter medo dos telemóveis e da Inteligência Artificial (IA)”.
“Não devemos proibir os alunos de usar a tecnologia, os telemóveis, mas sim ensiná-los a usá-los da forma correta, e dar-lhes autonomia e responsabilização pela sua utilização.”
José Ramos – Diretor da Escola Secundária João Gonçalves Zarco
Para o responsável é incontestável que “as tecnologias serão uma mais-valia no mercado de trabalho” e, partindo desse princípio, deixa ao livre arbítrio de cada professor se os estudantes utilizam ou não o telemóvel como ferramenta de pesquisa em sala de aula. “Não devemos proibir os alunos de usarem a tecnologia, os telemóveis, mas sim ensiná-los a usá-los da forma correta, e dar-lhes autonomia e responsabilização pela sua utilização”, reitera José Ramos no dia em que a escola ficou mais apetrechada com um acréscimo de tecnologia de ponta.
Equipada com tecnologia 5G, computadores, kits de robótica e óculos de realidade virtual, num investimento da NOS a rondar os 40 mil euros (valor contabilizado por José Ramos ao ECO/Local Online), a sala Lab Zarco apresenta-se como um “importante” recurso de aprendizagem que complementa os métodos de ensino tracionais.
A Secundária João Gonçalves Zarco passa, assim, a ser “a única escola do país que tem conteúdos desenvolvidos de raiz alinhados com o plano curricular, para serem usados em disciplinas como Geografia, Biologia e Geologia”, enfatiza, por sua vez, Margarida Nápoles, enquanto demonstra as potencialidades do projeto.
“É uma aprendizagem mais interativa, realista, estimulante e divertida”, descreve a diretora de responsabilidade social e comunicação corporativa da NOS, sob o olhar curioso de alunos, do secretário de Estado do Desporto, Pedro Dias, e do vice-presidente da câmara de Matosinhos, Carlos da Mouta.
Os estudantes podem viajar até ao centro da terra ou ser guiados através de rotas, ecossistemas e até observar espécies como se estivessem realmente nesses cenários. “Podem entrar num vulcão ou ir até ao fundo do mar numa experiência imersiva que complementa as aulas teóricas“, acrescenta, por sua vez, o diretor José Ramos.
“É a única escola do país que tem conteúdos desenvolvidos de raiz alinhados com o plano curricular para serem usados em disciplinas como Geografia, Biologia e Geologia.”
Margarida Nápoles – Diretora de responsabilidade social e comunicação corporativa da NOS
Esta iniciativa surge no âmbito de um protocolo estabelecido em 2021 entre a NOS e a escola de Matosinhos. “Nesse ano, tornámo-nos a primeira escola 5G do país“, recorda José Ramos, entusiasmado com a revolução tecnológica que o estabelecimento tem tido ao longo dos anos.
A Sala da Unidade de Apoio ao Alto Rendimento na Escola (UAARE), destinada a apoiar alunos atletas da seleção nacional ou de alto rendimento, foi outro dos momentos-chave deste dia vivido com a azáfama habitual do ambiente escolar.
Daniela Araújo, jogadora de hóquei em patins a frequentar o 12.º de Ciências e Tecnologia, é uma das estudantes que beneficia deste projeto. “Se faltarmos às aulas por motivos de competição, temos depois apoio de um professor nessa sala, para compensar a matéria que perdemos. Ou posso usar tablets e outras tecnologias que me ajudam a melhorar o meu rendimento escolar”, conta, sob os olhares atentos de outros estudantes que entretanto passavam pelo corredor.
Ao lado, o colega Tiago Souto, 18 anos, atleta de pentatlo moderno no Leixões Sport Club, também a frequentar o 12.º de Ciências e Tecnologia, considera a UAARE uma mais-valia, sobretudo para ter “explicações de português” e ter mais apoio escolar.
O diretor da escola acrescenta mais algumas vantagens para estes estudantes de alto rendimento ou que integram a seleção nacional, nomeadamente poderem requisitar tablets ou portáteis quando vão para fora em competição, por forma a assistirem às aulas à distância de um clique.
O Laboratório de Cibersegurança — um projeto-piloto desenvolvido em parceria com o Centro de Competências de Cibersegurança e Privacidade da Universidade de Porto — é outra das apostas deste estabelecimento de ensino. Este espaço disponibiliza a professores, funcionários e alunos um ambiente realista de simulação, treino e formação de boas práticas de segurança adaptadas ao contexto escolar, segundo explana Luís Antunes, diretor daquele centro de cibersegurança da Universidade do Porto.
“Aquilo que é expectável agora é que os professores estejam muito mais conscientes e que, em ambiente de sala de aula“, consigam capacitar igualmente os alunos com competências para saberem identificar ameaças na internet e prevenir ciberataques, frisa o Luís Antunes. O especialista em cibersegurança aproveita para deixar uma mensagem de alerta: “Nós ensinamos os nossos filhos a atravessar a rua e a não abrir a porta a estranhos em casa. Mas nunca os ensinamos a não abrir a porta da rede social a um estranho“.
