Ponto Digital

logo ponto digital white

Portugal no pódio digital… mas a transformação ainda não terminou

Portugal alcançou o 3.º lugar no Digital Government Index 2025 da OCDE, subindo do 11.º lugar em 2023 para o top 3 mundial em apenas dois anos. 

É uma conquista que merece reconhecimento. Num mundo onde eficiência administrativa e capacidade digital pesam tanto quanto estabilidade económica, esta subida não é apenas simbólica. É estratégica.

O índice avalia maturidade digital, integração tecnológica nas políticas públicas, uso inteligente de dados, serviços centrados nas pessoas e nas empresas e capacidade de inovação. Portugal destacou-se precisamente naquilo que mais importa hoje: serviços públicos digitais simples e integrados, interoperabilidade entre sistemas e utilização estratégica de informação para melhorar decisões.

Quem empreende, investe ou trabalha com mercados internacionais sente esta evolução. Abrir empresa, submeter declarações, tratar de licenças ou interagir com a administração pública tornou-se, em muitos casos, significativamente mais rápido e transparente do que há uma década. Para investidores estrangeiros, esta eficiência pesa nas decisões. Para empresas nacionais, reduz custos e incerteza.

Mas seria intelectualmente desonesto pintar um quadro exclusivamente cor-de-rosa.

A digitalização estrutural não elimina, por si só, problemas humanos e organizacionais. Em muitas repartições públicas continuam a existir situações caóticas, filas, atrasos e respostas desencontradas. Em alguns casos por falta de recursos humanos qualificados ou formação adequada para operar plenamente sistemas digitais. Noutras situações por algo mais delicado: uma cultura administrativa que nem sempre acompanha a velocidade da tecnologia.

Todos conhecemos episódios em que, perante uma questão objetiva, a resposta surge sob a forma de um “não é assim”, “a lei diz o contrário” ou “não é connosco, terá de falar com outro colega”. Quando a responsabilidade se dilui, o processo emperra. E quando o fator humano não acompanha a transformação digital, a modernização perde impacto.

Toda a digitalização se torna parcialmente obsoleta se a força humana não a acompanha ou, pior ainda, se resiste a ela. Sistemas podem ser eficientes, mas a execução depende sempre de pessoas. A tecnologia acelera, mas a cultura organizacional define a experiência real do cidadão e da empresa.

Ainda assim, é importante manter a perspetiva. Portugal está objetivamente num bom caminho. Existem países da União Europeia onde, em pleno 2026, continuam a exigir comunicações por fax para determinados processos administrativos. A comparação internacional ajuda-nos a perceber que a evolução portuguesa não é trivial.

O que este ranking demonstra é que a arquitetura digital está construída. O desafio agora é consolidar competências, reforçar formação, exigir responsabilidade e alinhar cultura com tecnologia. A modernização do Estado não termina na implementação de plataformas. Conclui-se quando a experiência do utilizador é coerente, eficiente e previsível em qualquer balcão, físico ou digital.

Portugal subiu ao pódio digital. Isso deve orgulhar-nos. Mas a verdadeira ambição não deve ser apenas estar no top 3. Deve ser garantir que essa excelência se sente no terreno, no atendimento diário, na resposta alinhada com a lei e nos prazos cumpridos.

Estamos claramente melhor do que estávamos. E, olhando para o panorama europeu, estamos à frente de muitos. Agora trata-se de transformar liderança digital em consistência operacional. É esse o próximo passo natural de um país que quer continuar a afirmar-se como moderno, competitivo e preparado para o futuro.

Leia na íntegra aqui.

FONTE: https://www.theportugalnews.com/